Movimento estudantil - Eles estão de cara nova
09/06/2007 - Movimento estudantil - Eles estão de cara nova
 
 
 
Depois de escrever capítulos marcantes na história do país, como lutar pelo petróleo nacional, contra a ditadura e pela cassação de um presidente da República, o movimento estudantil mostra uma nova cara às vésperas de completar 70 anos. A ocupação da reitoria da USP, em São Paulo, replicada em instituições gaúchas na semana passada, aponta para novos rumos.

Uma das principais diferenças do movimento estudantil 2007 em comparação com o próprio passado está na ênfase aos temas paroquiais - que formam uma pauta pulverizada incluindo desde isenções de taxas, sistemas de cotas, construção de refeitórios até a simples solidariedade a outras manifestações.

Nas duas manifestações ocorridas no Estado terça-feira, na federal de Pelotas (UFPel) e na do Rio Grande do Sul (UFRGS), na Capital, os únicos pontos em comum eram a condenação da reforma universitária e o apoio aos colegas da USP. De resto, trataram de questões pontuais.

- O fato de estarem mais centrados nas questões da vida estudantil me parece uma reação ao fato de que a UNE (União Nacional dos Estudantes) está descolada da base - acredita o ex-militante e cientista político Benedito Tadeu César.

Para outra ex-militante, a carioca Comba Marques Porto, integrante da UNE no final dos anos 60, essas questões poderiam ser tratadas por meio do diálogo em vez de invasões registradas em vídeo e disponibilizadas na Internet.

- Talvez esse tipo de manifestação mais agressiva seja parte da ousadia típica do jovem - pondera.

Para Tadeu César, a mobilização está contida no DNA dos estudantes de instituições públicas, principalmente federais, mesmo na atual ausência de bandeiras comuns:

- É uma tradição iniciada quando só uma elite nacional politizada chegava à universidade.

Historicamente vinculado a partidos políticos, o movimento deflagrado na USP também surpreendeu ao rejeitar ligação partidária ou subordinação à UNE. Para Tadeu César, isso poderia representar o desconforto de uma parcela anarquista com os partidos tradicionais.

O cientista político Paulo Moura descrê desse novo apartidarismo:

- Não vi exigências pela melhoria do ensino, mas um discurso semelhante ao sindical. Me parece que por trás há partidos procurando ocupar o espaço.

*Colaboraram Cleber Bertoncello e Eduardo Cecconi

( marcelo.gonzatto@zerohora.com.br )